O Brasil encerrou 2025 com 34.086 mortes violentas, contra 38.374 em 2024, uma redução de 11%, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP). Na Bahia, a queda foi ainda mais expressiva: 3.884 mortes violentas em 2025, 13,1% a menos que em 2024, com destaque para Salvador (-22,9%) e Região Metropolitana (-21,2%).
No debate público sobre segurança, existe uma tendência perigosa de simplificar fenômenos complexos. Um exemplo claro é a tentativa de explicar a queda de mortes violentas com uma única causa: a ideia de que haveria uma “pax” ou redução de confrontos entre grupos criminosos faccionados. Essa narrativa ganhou força porque é fácil de comunicar: se os homicídios caem, seria porque os criminosos decidiram, de forma autônoma, “dar uma trégua”; se sobem, é porque a trégua acabou.
O problema é que essa interpretação é metodologicamente frágil. Não há registro confiável de trégua oficial ou dados auditáveis que comprovem que o comportamento dos grupos seja o fator principal. Transformar uma hipótese não comprovada em explicação definitiva distorce a percepção pública e política sobre a segurança, criando uma narrativa que beneficia quem quer minimizar a atuação do Estado.
O efeito disso é político e comunicacionalmente corrosivo. Invisibiliza o trabalho contínuo das forças de segurança: policiais que mantêm controle territorial, respondem a incidentes, conduzem investigações complexas, apreendem armas e drogas, e prendem criminosos. Reduzir toda a dinâmica da segurança pública a uma suposta decisão interna do crime rebaixa a importância de esforços medidos, estratégicos e documentados. Além disso, cria-se uma lógica circular: toda melhora é atribuída a uma “trégua” e toda piora à falta dela, ignorando outros fatores determinantes, como aumento de prisões, tecnologias de investigação, políticas preventivas e investimentos estruturais. Essa visão simplista não ajuda a sociedade a compreender o que realmente funciona nem permite aprendizado institucional sobre estratégias eficazes.
Em 2025, a Bahia registrou 33.723 prisões (alta de 22,6%), 7.585 armas apreendidas, incluindo 138 fuzis, 2.060 prisões com apoio de reconhecimento facial, além de 20 toneladas de drogas retiradas de circulação, erradicação de 2 milhões de pés de maconha e desarticulação de 27 laboratórios. Esses dados reforçam que a redução da violência não ocorre de forma espontânea, mas é fruto de ação planejada e constante.
Transformar hipóteses não comprovadas em explicações principais empobrece o debate e induz a sociedade a conclusões equivocadas. Segurança pública não se sustenta com slogans, mas com estratégia, governança, método, recursos e entrega efetiva. Quando a curva de mortes violentas cai ao mesmo tempo em que aumentam prisões, apreensões e ações qualificadas, a atuação estatal não é detalhe. É parte essencial da explicação e deve ser reconhecida na narrativa pública.








